Nada jamais será como antes

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Este texto é um remix feito por Bernardo Gutiérrez (@bernardosampa em Twitter) de extrações das publicações: Utopias Piratas: Zona Autônoma Temporária (Hakim Bey, 1985-1995- 2003), Megalópolis: sensibilidades culturais contemporâneas (Celeste Olalquiaga, 1992), A Inteligência Coletiva (Pierre Levy, 1994) e Mudar o mundo sem tomar o poder (John Holloway, 2012). Utilizamos o cartaz publicado pela revista Adbusters, que ilustra o texto, a letra da canção coletiva Tava Havasi Tencere, composta em Istambul pelo movimento # OccupyGezi e trechos do artigo Chapuling nas ruas: John Holloway cumprimenta com solidariedade o movimento de resistência #OccupyGezi, da Social Network Unionism. As palavras São Paulo, Rio de Janeiro e Recife foram usadas como homenagem ao Brasil nas ruas. *(ver metodologia no final do texto).

 

Assim como as festividades, os motins revolucionários não podem acontecer todos os dias. Mas momentos intensos como estes dão forma e sentido à vida. O xamã retornará, mas as coisas estão mudadas. Algumas mudanças foram realizadas. Uma diferença foi estabelecida. Nada jamais será como antes. As navegações transversais e heterogêneas dos novos nômades exploram um outro espaço. Como fazer emergir a sinfonia do coletivo? Como transformar – sem partitura – um ruído da multidão em um coro?

Se quiserem podem nos chamar de infantis, mas é assim que iniciamos os trabalhos, gritando.
O que aconteceu com nossa cidade? Ela está cheia de edifícios esteroides. Eu não me vejo atravessando esta nova ponte. É impossível fundar uma cidade, impossível daqui por diante estabelecer-se, seja onde for, sobre um segredo, um poder, um terreno. Os corpos estão se tornando cidades e suas coordenadas temporais e espaciais. As histórias de vida foram substituídas por mapas. E cada um de nós possui metade do mapa; como os soberanos renascentistas, definimos uma nova cultura com nossos corpos malditos. Nossa emulsão de fluidos faz com que se misturem as articulações imaginárias da nossa cidade-estado com nosso suor. Somos imigrantes do subjetivismo. Somos nômades de um espaço sem arestas.

No início, como dissemos, era o grito. Nosso grito é uma projeção mais além, uma articulação da alteridade que pode vir a ser. É o grito de esperança. Vem aos poucos, lentamente, o solo é úmido. Aqui podemos antever uma nova geografia, um tipo de mapa de peregrinação em que os lugares sagrados são substituídos por Zonas Autônomas Temporárias (TAZ- temporary autonomous zones, em inglês); a verdadeira ciência da psicotopografía, que também pode ser chamada de “geoautonomía” ou “anarcomancia”. A Terra morre, com os deuses, se a música não for retomada, se os grupos não voltarem a ouvir o seu eco nas pedras, se a viagem não recomeçar, se os
trilhos forem abandonados. Venha lentamente, venha.

E de repente, de um corredor subterrâneo, surge a música do futuro. A Terra como uma bola de gude, o olho gigante de um satélite. Zonas Autônomas Temporárias (TAZ), como uma operação de guerrilha que libera uma área de terra, de tempo, de imaginação. E, em seguida, autodissolve-se para reconstruirse, em qualquer outro lugar ou tempo, antes que os diferentes Governos possam esmagá-la. A TAZ é um acampamento de guerrilheiros ontológicos: atacam e fogem. Mantém em movimento toda a tribo, mesmo somente com dados na web. A circulação devora, recobre, obstrui, engasga, ensurdece a cidade. Perfura, despedaça, corta o campo. O que aconteceu com nossa cidade? O que fazer? Mudar o mundo sem tomar o poder.

Venha lentamente, o solo é úmido. Venha nu como um sinal. Todo mundo está dançando nas ruas. Dançando com raiva, dançando com alegria sobre os túmulos de nossos mestres. A dança é a linguagem. As imagens de nós mesmos que precisamos ver. Somos todos turcos, gregos, cipriotas, brasileiros, espanhóis, árabes. Vem lentamente, dance. Invada as casas, mas em vez de roubar, deixe objetos PoéticoTerroristas. Sequestre alguém e faça-o feliz. Convença-o a ser o herdeiro de uma enorme, inútil e surpreendente fortuna,. Digamos, 5.000 hectares da Antártida. Ou um velho elefante de circo. Ou uma coleção de manuscritos alquímicos. Dança Istambul, dança Ankara, dança Izmir. O mundo dança com vocês. Cairo, Atenas, Madrid, Nova York, Londres, Cochabamba. Dança São Paulo, dança Rio de Janeiro, dança Recife. Danças improváveis em caixas eletrônicos noturnos. Implantações de pirotecnia e amor. Dança contra as elites. Dança contra o 1%.

A revolução do grito é a luta para libertar a subjetividade de seu corpo físico. Este não é o tempo da história, para as escrituras, para a cidade, mas um espaço móvel e paradoxal, que chega a nós pelo futuro. Tempo errante, plural, indefinido, como o que precede todas as origens. As memórias foram trocadas pelos cenários. Os sinais, por sua vez, tornam-se emigrantes:este húmus não para de tremer, de queimar. Deslizamentos vertiginosos em religiões e línguas, zapeando entre as vozes e as canções. Danças improváveis em caixas eletrônicos.

O xamã retornará, mas as coisas estão mudadas. O burguês retornará, mas nada jamais será como antes. Não há porvir. Nem revolução. Nem luta. Nem caminho. Você já é o rei da sua própria pele. Sua inviolável liberdade só espera se reunir ao amor de outros reis: uma política de sonho, urgente como o azul do céu. Separados da tribo por uma nostalgia fértil cavamos túneis por trás das palavras perdidas. Em seguida, encontramos bombas
imaginárias. Nada jamais será como antes.

* Não foi usada nenhuma palavra que não aparece nos textos originais. Eu simplesmente reuni os trechos e adaptei as frases com conjunções e vírgulas. As cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife foram usada como homenagem ao Brasil nas ruas.

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